Drill: “A banda sonora do homicídio”, mas será mesmo assim?

Por volta do fim da primeira década dos anos 2000, surgiu nos arredores de Chicago uma sonoridade distinta, mas que andava de mãos dadas com o na altura ainda novo e explosivo trap. Os rappers rimavam sobre o seu dia-a-dia onde a droga, a violência e a criminalidade eram predominantes, sendo as suas músicas de cariz mais violento. No calão, a palavra “Drill” era usada para referenciar a habilidade de responder à adversidade, de retaliar, e por vezes identificava-se mesmo com a guerra aberta nas ruas entre os vários gangues de Chicago. A associação da palavra ao estilo de música local é atribuída a Pac Man, antigo rapper e membro do gangue “Dro City”, dos arredores de Chicago, assassinado a tiro em 2010. O aumento da criminalidade (e em particular dos homicídios) nos subúrbios da cidade contribuiu em muito para fincar a imagem de marca daquilo que viria a ser o Drill.

Por essa altura, os impulsionadores do género concentravam-se no mesmo bairro de Chicago: O-Block, entre a 64th Drive e a Martin Luther King Drive. O bairro teve alguns moradores bastante conhecidos como Chief Keef, Lil Durk, Lil Reese, King Von e até…Michelle Obama. O bairro é conhecido por ter a maior taxa de criminalidade e de homicídios de Chicago, tendo havido 19 tiroteios entre os anos de 2011 e 2014, 2 deles fatais.

Várias referências a esses tiroteios são usadas nas primeiras letras de Chief Keef e de Lil Durk, em beats muito mais agressivos do que o então inovador trap. O O-Block teve bastante influência na carreira desses dois rappers, e no Drill no geral, pois a violência lá vivida no dia-a-dia, era depois transposta para as músicas. A sonoridade do Drill de Chicago distinguiu-se de todos os outros géneros dentro do Hip-Hop, e à medida que os rappers ganhavam fama, também o género em si alcançava os ouvidos dos maiores da indústria.

Eis que em 2012, Chief Keef tem direito a um remix da sua música “I Don’t Like” da parte de Kanye West e Pusha T. Já na altura reconhecido como um dos maiores génios da indústria musical, Kanye deu um impulso gigante à carreira de Chief Keef, tornando-o um dos gangsta rappers mais conhecidos ao dia de hoje. Ainda assim, o Drill não era um género que convencesse as massas, devido à sua obscenidade e agressividade.

Ao mesmo tempo, no Reino Unido surgia uma nova versão do género, com mais enfoque na produção, levando ao desenvolvimento de uma estética musical muito própria, que bebia bastante do Grime e do UK Garage, estilos predominantemente underground da cultura inglesa. Com o mesmo foco na violência, no tráfico e na criminalidade no geral, o “UK Drill” demarca-se do de Chicago pelo pace ou a velocidade da música. A rondar os 140Bpm’s, com kicks e 808’s bastante fortes, aliados a melodias mais obscuras, o Drill inglês não só passou a fazer parte do mainstream, como também já havia desenvolvido a sua própria identidade. Hoje, nomes como Aitch, Headie One, Dutchaveli, Russ Splash, Digga D, AXLBeats ou 808Melo são internacionalmente reconhecidos.

Posteriormente, foi a vez do bairro nova-iorquino de Brooklyn ir buscar inspiração à sonoridade britânica para voltar a colocar o Drill nos ouvidos dos jovens americanos. É do Brooklyn que saem nomes como Fivio Foreign, 22Gz, Sheff G, Sleepy Hallow e, o mais promissor de todos: Pop Smoke.

Bashar “Pop Smoke” Jackson era oriundo do Brooklyn e é ainda hoje a grande referência quando se fala em Drill, principalmente norte-americano. Pop Smoke apareceu em Abril de 2019 com o lançamento do single “Welcome to the Party”. Pouco depois, lança a sua primeira mixtape (“Meet the Woo”) onde se insere o seu tema mais famoso e que o deu a conhecer a todo o mundo, “Dior“. Depois do incrível sucesso do tema e da mixtape, Travis Scott chama o prodígio nova-iorquino para o tema “Gatti“, uma faixa em Drill, que faz parte da sua mixtape Jackboys”. O sucesso de Pop Smoke era inegável e já em 2020 lança a sua segunda mixtape (“Meet the Woo 2”).

Infelizmente, apenas duas semanas depois do lançamento do seu segundo projeto, Bashar Jackson é assassinado a tiro na sua própria casa em Calabasas, Califórnia, falecendo assim aos 20 anos. O seu álbum póstumo (“Shoot for the Stars, Aim for the Moon”), lançado 4 meses depois da sua morte, foi bastante aclamado pela crítica com temas como “Mood Swings” com Lil Tjay, “For the Night” com DaBaby e Lil Baby e “The Woo” com 50 Cent e Roddy Ricch a serem muito elogiados, assim como o álbum todo no geral.

A morte do mais promissor driller da atualidade, ainda para mais nas circunstâncias em que aconteceu, só veio reacender a controvérsia à volta do estilo musical. A maior parte das letras dos temas são bastante agressivas, não fosse o drill um descendente também do Gangsta Rap, e muitas foram as instituições que se apressaram a estabelecer uma relação entre o aumento da criminalidade em certas cidades com o aumento da popularidade do género. Foi o caso da Comissária da Polícia de Londres que em 2018 ordenou que 30 músicas de Drill fossem retiradas do YouTube.

Em 2014, Drillminister, rapper londrino, defendeu o estilo musical dizendo que “maior parte dos drillers usa as suas circunstâncias de vida como fonte de inspiração para as letras” e que o crime faz parte dessas circunstâncias por “força de uma sociedade segregacionista”.

Não há prova que a música influencie alguém a cometer crimes, isso parte das personalidades e das vivências das pessoas, como explicou à CNN no início deste ano o Professor de Psicologia da Universidade McGill do Canadá Daniel Levitin. O Professor acrescentou ainda que o drill pode ser apreciado por ouvintes que não tenham tendências violentas.

Hoje o Drill faz cada vez mais parte do mainstream e aos poucos vai sendo aceite pelos demais, com nomes de peso como Drake, Stormzy, Travis Scott e Rick Ross a aventurarem-se no estilo, o que contribui também para essa aceitação geral. No fundo, o Drill é mais um sub-género do Hip-Hop, e só por esse “parentesco” já iria ser sempre alvo de críticas da sociedade por incentivo à criminalidade, no entanto, devemos compreender que sem uma predisposição prévia para a violência, não é o Drill ou qualquer outro estilo que vai acender esse rastilho.