Há umas semanas atrás, depois de Rafael Leão, jogador do AC Milan, ex-jogador do Sporting, ter lançado o seu primeiro projeto de rap sob o nome de Way 45, lembrei-me das inúmeras vezes que os universos do rap e do futebol se cruzaram. Rafael Leão junta-se, desta forma, a uma vasta lista de jogadores de futebol que já se aventuraram na arte de rimar. Assim de repente, recordo-me de Memphis Depay que lançou um álbum em 2020, de Jackson Martinez que se estreou em 2018 com o seu primeiro projeto e até do próprio Andy Cole que em 1999, quando era jogador do Manchester United, lançou o seu primeiro single. Relativamente a estes lançamentos, creio que podemos descartar a motivação financeira, uma vez que todos temos uma ideia dos ordenados auferidos por jogadores deste estatuto. Penso que nestes casos, o “amor à camisola” do rap falou mais alto.

Para além destas estreias, existem também vários momentos onde estes dois campos se voltam a tocar. Passo o exemplo de Niska, que lançou uma música dedicada a enaltecer Matuidi, fazendo até com que o jogador passasse a festejar os seus golos de forma diferente e muito característica, imitando o voo de um abutre. 

Niska apelidou Matuidi de Charo – termo com origem na palavra francesa «charognard» (que significa animal necrófago ou abutre) – por se identificar com  o jogador. Nas palavras do próprio Niska, o movimento “representa as asas do abutre, um necrófago em ação, pronto para descer sobre o seu alvo quando ele pairar”. 

Outro momento memorável, onde estas duas áreas se voltam a cruzar é aquando da apresentação de Pogba no Manchester United, em que Stormzy se  juntou à Adidas para o vídeo de apresentação do jogador no clube. O rapper britânico encarregou-se da parte sonora e Pogba surge no vídeo a fazer o famoso dab e a dançar. O resultado desta colaboração teve bastante impacto, e foi muito bem acolhido pelo público, na altura.

Mas afinal, porque se cruzam estes dois universos tantas vezes? Uma das coisas mais evidentes, depois de relatar estas ligações, é que há uma questão que todos estes protagonistas têm em comum, para além do futebol: todos eles são negros. Será isto uma coincidência? Será que isto pode justificar de alguma forma estas ligações? Ora, olhando para o meu próprio caso, enquanto jovem negro português, faço a constatação de que estas são duas das áreas com as quais tenho mais ligação. Sinceramente, acho que esta ligação surge em função de serem duas dimensões em que vimos frequentemente um negro a ser bem sucedido e  a ser visto como um herói.

Olhando para Portugal no caso do futebol, temos casos bem próximos. Vejamos o caso de Eusébio na década de 60 ou até mesmo de Éder durante o Europeu de 2016. Em que mais situações foram negros tão valorizados e tão bem vistos no nosso país? Para mim, isto foi fundamental para que, desde miúdo, criasse ligação com esta área. É uma das poucas onde vejo “semelhantes” a serem bem sucedidos. No rap acontece a mesma coisa. Lembro-me perfeitamente de, em adolescente, ver os videoclipes do 50 Cent e de, inconscientemente, ver alguém no mainstream parecido comigo a ser tão bem sucedido. Isto incentivou-me a interessar-me mais, a querer explorar esta arte e reforçou a minha auto-estima enquanto afrodescendente.

Mas será que isto aconteceu com os protagonistas acima mencionados? Não sei, só eles saberão. No entanto, de uma coisa tenho a certeza: o rap e o futebol continuam a ser das poucas áreas onde vemos muitos negros a serem bem sucedidos. Tal como a personagem Marcus diz no inspirador filme Freedom Writers (2007): “When I look out in the world I don’t see nobody that looks like me with their pockets full unless they’re rapping a lyrics or dribbling a ball, so what else you got in here for me?”. 

Quantos juízes negros existem em Portugal? Quantos CEO’s de empresas? Quantas mulheres negras podemos contar em posições de empoderamento? Quantos académicos? Quantos a desempenhar, ativamente, funções políticas? Espero que a tendência seja de mudança e que o rap e o futebol não sejam os únicos caminhos para um percurso glorioso de um negro.

Tomé Ramos
Licenciado em Sociologia, mestre em Marketing, criador do podcast “Mais Do Que Uma Vez” e um apaixonado por arte e cultura