Bem-vindos ao primeiro Spotlight. O Spotlight é uma rubrica semanal em que um projeto fica debaixo dos focos de luz: o spotlight. Iremos apresentar curiosidades, relembrar a importância, dar a conhecer, no fundo, falar sobre o projeto escolhido. Fica, abaixo, a playlist do projeto escolhido, para ser acompanhado enquanto cada faixa é alvo dos holofotes.

O primeiro a ficar debaixo das luzes será aquele que já vimos no título. Atitude, o EP de 2015 do Rei da Linha de Sintra, NGA. O Atitude é composto por 7 faixas, que correspondem às 7 letras da palavra, com 4 feats: DJ X-Ato, Trini & Van Sophie, João Pina e Yola Semedo. Viaja por vários estilos e vertentes do hip hop, incorporando elementos de R&B, Soul, Trap, Drill (de Chicago), desde o mais pesado ao mais suave. É uma amostra da versatilidade de NGA, que da primeira à sétima faixa fez algo completamente diferente, mas sempre com a sua marca. “Normal” e “P.C.A.” são verdadeiros hinos da carreira do rapper, daqueles que muitos conhecem e inundaram as colunas de muitos de nós em 2015 e 2016. Destaque, também, para os 7 videoclipes que ilustram cada uma das tracks. Um verdadeiro power move.

A primeira faixa, “De Aço”, é um shout out à persistência e hustle que estão enraizados no DNA do Edson Silva. “Só volto para a esquina quando fizer o mesmo que faço nesses palcos”. NGA nunca desiste, nem nunca desistiu. Seria preciso um mundo inteiro. Uma vida a fazer rap por amor, nunca por dinheiro ou fama, e continua presente com a força dum furacão. “A mim não mandam abaixo, eu tenho colchões de aço”. A barras cruas num beat pesado são a marca do NGA de 2013-2016, não que antes ou agora não o faça – mas nesses anos, foi o que mais prevaleceu. Puxa mais ao hip hop tradicional, não necessariamente boom bap, mas clássico, com scratch de DJ X-Ato. Este som é para rasgar as expectativas logo ao início.

“Normal” não necessita de palavras. Um videoclipe que na altura foi o mais caro do hip hop tuga na altura – e talvez ainda mantenha esse título. “Se eu fizesse o Normal ias ver esse preto a dar show num Panamera”, disse o próprio na faixa Urna, de 2017. Uma curta-metragem a cargo de Alexandre Azinheira, com direito a helicópteros e tudo o que os já mais de 20 anos de carreira dão direito. Com mais de 3 milhões de views, mas certamente o seu maior peso na história do hip hop tuga é como o tema que deu o step up em termos de produção audiovisual. A prova de que o hip hop não é pequeno, e que estava (e está) a caminho de ser gigante no nosso país. Das várias barras pesadíssimas que ouvimos na track, talvez o destaque vá para “Tipo antes, em Queluz / Acendi a luz da cozinha era uma festa de baratas / Agora a parede do meu estúdio ’tá infestada de placas”. Melhor forma de descrever a carreira e sucesso de NGA não existe, pelo menos no “Atitude”.

“P.C.A.” é o comeback do flexer e hustler NGA. “Senta o teu cu num Mercedes” e sentar-se num Maserati num videoclipe não é incoerência – é o flexing rijo e merecido a que já estamos habituados da parte do Rei. Daqueles temas que se ouviam a cada 20 passos pelas ruas da Linha de Sintra e nos intervalos de qualquer escola… e que metem salas de espetáculos a lutar com o teto. A definição dos traços gangsta. Sem dúvida das faixas mais icónicas do rapper.

Voltamos a encontrar o NGA trapaceiro no amor e nas relações na faixa “Sentimentos”. A fuga pela noite que deixa a companheira em casa… enquanto se dedica a outras. Um amor em falência que leva à frustração, pois não só de flex e hustle se faz a vida dum real gangsta. Existem sentimentos e toda uma outra parte problemática na vida pessoal que também pesam na vida do artista. Na primeira parte ouvimos a parte dela, e na segunda parte a dele – ou de qualquer outro que tenha passado por essas questões. A culpa não é de nenhum dos dois – “é desses sentimentos”.

Se a ideia for uma vibe romântica, talvez para compensar os problemas em “Sentimentos”, ou a adrenalina de um one night stand, recostamo-nos na faixa 5, “Champanhe”. A história dum encontro num hotel, talvez imaginária, talvez a vida própria de NGA… mostra o seu lado galã e sedutor com as participações R&B de Trini e Van Sophie, numa saga que nos transporta para as cenas mais classy dos filmes do James Bond com a sua Bond Girl – se o James Bond fosse um OG da Linha de Sintra. A verdade é que poucos resistem ao NG, seja pelo charme ou pela capacidade musical. Um astro.

Para que não seja possível arranjar defeitos ao artista, passamos pelo clássico, pelo flex, pela reflexão de sentimentos negativos, pelo charme do galã e chegamos à parte da consciência social – “Difícil”. Refletindo sobre a situação precária de muitos imigrantes em Portugal, NGA droppa versos atrás de versos contando a história de tantos que sofrem com racismo e a forma insensível com que tantos são tratados pelo sistema legal. Começa com o “mano Armando” no SEF a tentar renovar documentos para dar uma vida melhor à filha, e progride para a reflexão de NGA sobre aquilo que já conseguiu com trabalho árduo, e a ideia que quer passar com isso é de força: “Fica mais difícil mano, se não acreditares em ti”, dizem NGA e João Pina no refrão. Excelente participação melódica de João Pina, que acrescenta a vertente algo gospel a este projeto incrível. Um hino à força, dedicação e hard work.

Por fim, chegamos à 7ª – “Van Gogh”. Talvez seja coincidência, mas não deixa de ser algo poético. “Van Gogh” fala sobre a ideia de “pintar quadros tipo Van Gogh”, não no sentido literal, mas de projetar um quadro mental e pintá-lo com palavras: quando olhamos para uma música (um quadro) de NGA no seu todo – melodia, letra, flow, instrumental -, vemos a pintura toda. O mesmo já disse que na sua cabeça vê quadros quando canta, como se cada momento fosse uma pincelada para criar uma obra de arte. Não só de como faz a sua arte fala Edson; é também uma luz para o esforço. Talvez seja esse o ponto em comum de todo este projeto. O encorajamento para o esforço e trabalho consistente. Fala-nos, também, daquilo que “pinta” – “as drenas, sofrimento, o que for, man“. Acompanhado de Yola Semedo para dar vida a este quadro, fechamos o EP com a ideia de um NGA Van Gogh e, sem dúvida, com uma coleção de quadros digna do Museu Coleção Berardo.

É um projeto que merece ser ouvido, mais do que alvo de uma review. Como toda a música, tem de ser sentida. Acredito que Atitude é daqueles projetos intemporais – mistura tantas vertentes e mostra tanta versatilidade que mesmo tendo 5 anos poderia ter saído ontem e ninguém iria estranhar. Mas teve, sem dúvida, o seu peso especial no momento em que saiu. Fechamos, assim, o primeiro Spotlight.