Bem vindos ao terceiro Spotlight. Esta semana, as luzes focam-se no álbum de originais de Plutónio, “Sacrifício: Sangue, Lágrimas, Suor”. Um projeto que fez história em Portugal, ao tornar-se o primeiro álbum (nacional) lançado apenas em formato digital a atingir a platina (mais de 15.000 vendas, sendo que são precisos 150 streams para atingir 1 venda). Segue abaixo, como já é habitual, uma playlist com o álbum.

“Sacrifício: Sangue, Lágrimas, Suor” é uma coleção de hits de Plutónio. Com vários singles a ostentar ouro, platina, ou até mesmo dupla platina, é impossível não ficar encadeado com este álbum. Mas não só de vitórias comerciais se faz este projeto. É uma coleção de histórias da vida do rapper. Desde o passado tumultuoso apresentado em 3AM ou Sacrifício, desespero e esperança em Meu Deus, ao “we made it” em Dramas & Dilemas, vemos o percurso dum homem que tentou, lutou e atingiu.

O lado afetivo e privado não é deixado de lado, e “Francisca”, “Somos Iguais” ou “Conversas” mostram algumas lutas internas que humanizam uma estrela em ascensão. Mesmo com todo o sucesso do mundo, as fragilidades e preocupação de ser pai ou o falhanço e problemas duma relação não faltam a ninguém.

A questão social está presente em todo o álbum, e mesmo com toda a distração do mundo seria difícil não perceber. Os diálogos apresentados no início ou fim de algumas músicas, como em “3AM”, “Prada” ou “Senhor Guarda” são retirados daquela que é a realidade de muitos no meio de nós. O desfavorecimento e relegação para a categoria de “cidadão de segunda”, racismo e abuso por parte de poderes “superiores”. Frases como “Grande carro, onde é que gamaste isto?”, “Era o que me faltava, que a minha filha andasse metida com um preto”, “Desaparece daqui sua preta antes que leves uma cacetada”. Estas são algumas frases tristes e vergonhosas que Plutónio força nas nossas cabeças ao longo do álbum, provenientes de reportagens ou peças de ficção baseadas na realidade. Podemos (e devemos) não gostar do que ouvimos, mas a verdade é que Plutónio e muitos outros cresceram e vivem rodeados dessas situações. Faz todo o sentido que o apresente naquele que é um álbum, sem dúvida, autobiográfico.

Não só de questões pesadas se faz a biografia do Rei do BCV. Senhor Guarda, ainda que com alguma conotação crítico-social, Vergonha na Cara, Mesmo Sítio, Badman, Lucy Lucy, Não Tou Nem Aí ou 1 de Abril são temas que, ainda que cada um tenha a sua vertente mais gangsta ou lover boy, para ser ouvidos em festas ou numa vibe mais calma. O certo é que Plutónio meteu as suas cordas vocais a trabalhar para um dos projetos mais versáteis de 2019. Tudo isto sem nenhum feat (o que torna o recorde um feito ainda mais meritório) e com uma paleta de produtores talentosíssimos como Prodlem ou Twins e, claro, os gigantes Lhast, Deejay Télio e Sam The Kid.